o o tinham mudado muito. Petyi tinha sido um
rapaz pequeno, e crescera até transformar-se num
homem pequeno, quatro ou cinco centímetros mais
baixo que Catelyn, esbelto e rápido, com as feições
inteligentes que ela recordava e os mesmos olhos
risonhos cinza-esverdeados. Usava agora uma
pequena barbicha pontiaguda, e tinha traços de
prata no cabelo escuro, embora ainda não tivesse
trinta anos. Combinavam bem com o tejo de prata
que prendia ao manto. Mesmo quando criança,
sempre gostara de sua prata.
- Como soube que eu estava na cidade? - ela
perguntou.
- Lorde Varys sabe tudo - disse Petyr com um
sorriso malicioso. - Ele se juntará a nós em breve,
mas eu quis vê-la a sós primeiro. Foi há tanto
tempo, Cat. Quantos anos?
Catelyn ignorou a familiaridade do homem. Havia
perguntas mais importantes.
- Então foi a Aranha do Rei que me encontrou.
Mindinho encolheu-se.
- Não deve chamá-lo assim. Ele é muito sensível.
Imagino que por ser um eunuco. Nada acontece
nesta cidade sem que Varys fique sabendo. Por
vezes, ele sabe das coisas antes de elas acontecerem.
Tem informantes por todo o lado. Chama-os de seus
passarinhos. Um de seus passarinhos ouviu falar da
sua visita. Felizmente, Varys veio falar comigo
primeiro.
- Por que você?
Ele encolheu os ombros.
- E por que não? Sou o mestre da moeda, o
conselheiro do rei. Selmy e Lorde Renly foram para
o Norte ao encontro de Robert, e Lorde Stannis
partiu para Pedra do Dragão, deixando só Meistre
Pycelle e eu. Era a escolha óbvia. Sempre fui amigo
de sua irmã Lysa, e Varys sabe disso.
- Saberá Varys sobre...
- Lorde Varys sabe tudo... exceto o motivo de estar
aqui - ergueu uma sobrancelha. - E por que motivo
está aqui?
- É permitido a uma esposa ansiar pelo marido, e se
uma mãe precisar das filhas por perto, quem lhe dirá
que não?
Mindinho soltou uma gargalhada.
- Ah, muito bem, minha senhora, mas com certeza
não espera que eu acredite nisso. Conheço-a bem
demais. Como eram as palavras dos Tully?
A garganta dela estava seca.
- Família, Dever, Honra - recitou rigidamente. Ele de
fato a conhecia bem demais.
- Família, Dever, Honra - repetiu ele. - E todas
estas coisas requeriam que tivesse permanecido em
Winterfell, onde a nossa Mão a deixou. Não, minha
senhora, algo aconteceu. Esta sua súbita viagem
sugere certa urgência. Suplico-lhe, deixe-me ajudar.
Os velhos amigos íntimos nunca deveriam hesitar em
apoiar-se uns nos outros - ouviu-se uma suave batida
na porta. - Entre - disse Mindinho em voz alta.
O homem que atravessou a porta era roliço,
perfumado, empoado e tão desprovido de cabelos
como um ovo. Trajava uma veste de fio de ouro
trançado sobre um vestido largo de seda púrpura e,
nos pés, trazia chinelos pontiagudos de suave
veludo.
- Senhora Stark - disse, tomando-lhe uma mão nas
suas -, vê-la de novo após tantos anos é uma grande
alegria - sua pele era mole e úmida, e o hálito
cheirava a lilases. - Ah, suas pobres mãos.
Queimaduras, querida senhora? Os dedos são tão
delicados... Nosso bom Meistre Pycelle faz um
bálsamo maravilhoso, mando buscar um jarro?
Catelyn puxou a mão.
- Agradeço-lhe, senhor, mas meu Meistre Luwin já
tratou de minhas dores, Varys inclinou a cabeça.
- Fiquei atrozmente triste quando soube do que
aconteceu ao seu filho. E ele tão jovem. Os deuses
são cruéis.
- Nisso concordamos, Senhor Varys - ela disse. O
título não passava de uma cortesia que lhe era
devida por ser membro do conselho; Varys não era
senhor de coisa nenhuma, a não ser da teia de
aranha; mestre de ninguém, a não ser de seus
segredos.
O eunuco estendeu as mãos suaves.
- Em mais do que isso, espero eu, querida senhora.
Tenho grande estima pelo seu marido, nossa nova
Mão, e sei que ambos amamos o rei Robert.
- Sim - foi forçada a dizer. - Com certeza.
- Nunca um rei foi tão amado como o nosso Robert -
observou Mindinho, sorrindo maliciosamente. - Pelo
menos ao alcance dos ouvidos do Senhor Varys.
- Minha boa senhora - disse Varys com grande
solicitude. - Há homens nas Cidades Livres com
assombrosos poderes curativos. Basta que me diga
uma palavra e mandarei chamar um para o seu
querido Bran.
- Meistre Luwin está fazendo tudo o que pode ser
feito por Bran - ela informou. Não queria falar de
Bran, não ali, não com aqueles homens. Confiava
apenas um pouco em Mindinho, e absolutamente
nada em Varys, Não queria deixá-los ver sua dor. -
Lorde Baelish disse-me que é a vós que devo
agradecer por me trazerem até aqui.
Varys soltou um risinho de moça,
- Ah, sim. Suponho que sou culpado. Espero que me
perdoe, bondosa senhora - instalou-se numa cadeira
e juntou as mãos. - Pergunto a mim mesmo se
podemos incomodá-la pedindo que nos mostre o
punhal?
Catelyn Stark fitou o eunuco com uma descrença
atordoada. Ele era uma aranha, pensou preci-
pitadamente, um encantador, ou coisa pior. Sabia
coisas que ninguém poderia de modo algum saber, a
não ser que...
- O que fez a Sor Rodrik?
Mindinho tinha perdido o fio da meada.
- Sinto-me como o cavaleiro que chega ao campo de
batalha sem sua lança. De que punh